Entre acertos e desleixos acumulados ao longo de décadas, o cenário internacional vem retornando ao seu estado natural. O multilateralismo ideologizado, tal como foi construído e legitimado pela Organização das Nações Unidas (ONU), caminha para seu fim prematuro, mas necessário, muito antes de completar seu centenário.
Criada para impedir novos conflitos de proporções mundiais como guerras e sintomas que as podem gerar, a ONU transformou-se em um fórum ideológico dominado por grandes corporações, redes de influência globais e grupos de interesse. Em vez de promover soluções pragmáticas, a organização passou a pressionar Estados soberanos, gerando uma erosão gradual da autoridade nacional sobre seu território e suas políticas internas — um movimento em direção à subserviência supranacional.
Os limites de uma instituição idealizada
A fragilidade da ONU não reside em sua concepção original muito agradada pelo contexto da época, mas na natureza humana que a opera. Mentes mal preparadas da instituição reúnem-se para impor regras, deveres e comportamentos aos Estados tentando abolir de forma gradual os alicerces morais de países. A Carta da ONU, em seu Artigo 1º, estabelece o objetivo de “manter a paz e a segurança internacionais” e, no Artigo 2º, o desenvolvimento de “relações amistosas entre as nações” (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 1945). Princípios nobres, mas cada vez mais ineficazes.
Estudiosos das Relações Internacionais há muito alertam que equilibrar permanentemente os interesses nacionais é uma visão ingênua. A instituição frequentemente atua em sobreposição ou contra as instituições nacionais, interferindo em culturas e anseios internos dos Estados. Embora não se negue o avanço moral em temas como direitos das mulheres e proteção infantil — ideias que remontam a pensadores como Kant e sua noção de “cidadão do mundo” (KANT, 1795) —, a ONU há anos deixou de atender às reais necessidades do tabuleiro internacional para focar intrinsecamente nas ideologias e rompimento de paradigmas culturais já estabelecidos.
O conflito entre Rússia e Ucrânia expôs de forma definitiva essa falência. A organização mostrou-se incapaz de mediar, conter ou oferecer soluções concretas, revelando sua irrelevância perante as grandes potências.
Globalização, redes sociais e a nova diplomacia direta
Com o avanço tecnológico e a globalização, surgiu um instrumento mais eficaz e democrático de interação internacional: as redes sociais. Pela primeira vez, populações inteiras acompanham em tempo real os conflitos, negociações e tensões entre líderes mundiais. Essa transparência reduziu drasticamente a necessidade da intermediação burocrática da ONU.
Líderes de Estado agora tratam diretamente seus interesses e resolvem conflitos, rompendo a estrutura obsoleta das Nações Unidas. O exemplo emblemático foi Donald Trump ao atravessar a pé a Zona Desmilitarizada entre as Coreias e apertar a mão de Kim Jong-un, demonstrando que a diplomacia bilateral e pessoal pode superar as grandes mesas multilaterais.
O pêndulo do poder e o vácuo hegemônico
Após o fim da hegemonia incontestável dos Estados Unidos e o ascenso chinês, o pêndulo do poder voltou a se movimentar. Como apontado por Jean-Baptiste Duroselle, o sistema internacional está em constante transformação: novas potências emergem enquanto outras declinam. Nenhuma ordem internacional se sustenta apenas por si; ela depende da anuência dos Estados mais poderosos (DUROSELLE, 2000).
Com a hegemonia americana fragilizada, as nações buscam preencher o vácuo de poder, gerando um ambiente conflituoso. A ONU, sem corpo diplomático pragmático e dominada por análises ideológicas, mostrou-se inepta para reorganizar o tabuleiro. O distanciamento dos Estados Unidos, a redução de recursos e o desrespeito aberto de potências como a Rússia confirmam sua obsolescência.
Duroselle reforça que o sistema segue um fluxo contínuo, sem estabilidade permanente. Hegemonias prolongadas geram contraposições naturais. O crescimento acelerado da China ilustra esse movimento, produzindo turbulências que ainda não chegaram ao ponto máximo, mas que já reorganizam o cenário global (DUROSELLE, 2000).
Adam Watson, por sua vez, contribuiu com a metáfora do pêndulo, que oscila entre os extremos da independência absoluta e do império, tendendo a posições intermediárias de hegemonia ou de uma sociedade internacional mais hierárquica e fluida (WATSON, 1992).
O papel do Brasil e a fragilidade das instituições supranacionais
O Brasil, membro fundador da ONU e tradicionalmente o primeiro país a discursar na Assembleia Geral, historicamente ocupou posição simbólica graças ao seu perfil moderado e pacífico. No entanto, em um cenário internacional cada vez mais conflituoso, a neutralidade excessiva tornou-se sinônimo de irrelevância. O maior país da América Latina permanece “juvenil” no tabuleiro global, frequentemente usado por potências externas na extração de matérias-primas e na expansão de interesses econômicos.
Essa fragilidade brasileira também contribui para o enfraquecimento da ONU. Desde a fundação, Brasil e Estados Unidos foram pilares importantes da organização. À medida que ambos enfrentaram crises internas e externas, abriu-se espaço para a dominação por ideologias que comprometeram ainda mais a credibilidade da instituição.
Conclusão: O início da queda dos dominós
O tabuleiro internacional equilibra-se novamente em torno de estruturas de poder hegemônico. Ainda não está claro se os Estados Unidos recuperarão sua posição dominante ou se outra potência assumirá o posto. O que é certo é que as mudanças tecnológicas, culturais e políticas estão moldando as próximas décadas.
A fortificação de posições conservadoras intensifica o confronto contra o progressismo, especialmente na Europa — seu berço — e na América Latina. As próximas décadas testemunharão a queda gradual das instituições supranacionais. A ONU representa apenas o início da queda dos dominós.
O multilateralismo ideologizado e persecutório está sendo enterrado. O mundo retorna à lógica clássica do poder: interesses nacionais claros, diplomacia direta e correlação de forças. As grandes mesas estão vazias. O futuro será escrito nas relações bilaterais, nas alianças flexíveis e na dura realidade da política internacional.
Referências bibliográficas:
- DUROSELLE, Jean-Baptiste. Todo império perecerá: teoria das relações internacionais. Tradução de: Ane Lize Spaltemberg de Sequeira Magalhães. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2000.
- KANT, Immanuel. À paz perpétua: um projeto filosófico. Porto Alegre: L&PM, 1989. (Obra original publicada em 1795).
- ONU. Organização das Nações Unidas. Carta das Nações Unidas. São Francisco, 26 jun. 1945. Disponível em: . Acesso em: 10 de maio, 2026.
- WATSON, Adam. Hegemony & history. London, 2007.
- WATSON, Adam. The evolution of international society, 1992.