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Das grandes mesas ao túmulo: o fim do multilateralismo antes do centenário

11 de maio de 2026 por
Liniky Pereira Freitas Pires
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Entre acertos e desleixos acumulados ao longo de décadas, o cenário internacional vem retornando ao seu estado natural. O multilateralismo ideologizado, tal como foi construído e legitimado pela Organização das Nações Unidas (ONU), caminha para seu fim prematuro, mas necessário, muito antes de completar seu centenário. 

Criada para impedir novos conflitos de proporções mundiais como guerras e sintomas que as podem gerar, a ONU transformou-se em um fórum ideológico dominado por grandes corporações, redes de influência globais e grupos de interesse. Em vez de promover soluções pragmáticas, a organização passou a pressionar Estados soberanos, gerando uma erosão gradual da autoridade nacional sobre seu território e suas políticas internas — um movimento em direção à subserviência supranacional. 


Os limites de uma instituição idealizada

A fragilidade da ONU não reside em sua concepção original muito agradada pelo contexto da época, mas na natureza humana que a opera. Mentes mal preparadas da instituição reúnem-se para impor regras, deveres e comportamentos aos Estados tentando abolir de forma gradual os alicerces morais de países. A Carta da ONU, em seu Artigo 1º, estabelece o objetivo de “manter a paz e a segurança internacionais” e, no Artigo 2º, o desenvolvimento de “relações amistosas entre as nações” (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 1945). Princípios nobres, mas cada vez mais ineficazes.

​Estudiosos das Relações Internacionais há muito alertam que equilibrar permanentemente os interesses nacionais é uma visão ingênua. A instituição frequentemente atua em sobreposição ou contra as instituições nacionais, interferindo em culturas e anseios internos dos Estados. Embora não se negue o avanço moral em temas como direitos das mulheres e proteção infantil — ideias que remontam a pensadores como Kant e sua noção de “cidadão do mundo” (KANT, 1795) —, a ONU há anos deixou de atender às reais necessidades do tabuleiro internacional para focar intrinsecamente nas ideologias e rompimento de paradigmas culturais já estabelecidos.

​O conflito entre Rússia e Ucrânia expôs de forma definitiva essa falência. A organização mostrou-se incapaz de mediar, conter ou oferecer soluções concretas, revelando sua irrelevância perante as grandes potências.


Globalização, redes sociais e a nova diplomacia direta

​Com o avanço tecnológico e a globalização, surgiu um instrumento mais eficaz e democrático de interação internacional: as redes sociais. Pela primeira vez, populações inteiras acompanham em tempo real os conflitos, negociações e tensões entre líderes mundiais. Essa transparência reduziu drasticamente a necessidade da intermediação burocrática da ONU. 

​Líderes de Estado agora tratam diretamente seus interesses e resolvem conflitos, rompendo a estrutura obsoleta das Nações Unidas. O exemplo emblemático foi Donald Trump ao atravessar a pé a Zona Desmilitarizada entre as Coreias e apertar a mão de Kim Jong-un, demonstrando que a diplomacia bilateral e pessoal pode superar as grandes mesas multilaterais.


O pêndulo do poder e o vácuo hegemônico

​Após o fim da hegemonia incontestável dos Estados Unidos e o ascenso chinês, o pêndulo do poder voltou a se movimentar. Como apontado por Jean-Baptiste Duroselle, o sistema internacional está em constante transformação: novas potências emergem enquanto outras declinam. Nenhuma ordem internacional se sustenta apenas por si; ela depende da anuência dos Estados mais poderosos (DUROSELLE, 2000). 

​Com a hegemonia americana fragilizada, as nações buscam preencher o vácuo de poder, gerando um ambiente conflituoso. A ONU, sem corpo diplomático pragmático e dominada por análises ideológicas, mostrou-se inepta para reorganizar o tabuleiro. O distanciamento dos Estados Unidos, a redução de recursos e o desrespeito aberto de potências como a Rússia confirmam sua obsolescência. 

​Duroselle reforça que o sistema segue um fluxo contínuo, sem estabilidade permanente. Hegemonias prolongadas geram contraposições naturais. O crescimento acelerado da China ilustra esse movimento, produzindo turbulências que ainda não chegaram ao ponto máximo, mas que já reorganizam o cenário global (DUROSELLE, 2000). 

​Adam Watson, por sua vez, contribuiu com a metáfora do pêndulo, que oscila entre os extremos da independência absoluta e do império, tendendo a posições intermediárias de hegemonia ou de uma sociedade internacional mais hierárquica e fluida (WATSON, 1992).


O papel do Brasil e a fragilidade das instituições supranacionais

​O Brasil, membro fundador da ONU e tradicionalmente o primeiro país a discursar na Assembleia Geral, historicamente ocupou posição simbólica graças ao seu perfil moderado e pacífico. No entanto, em um cenário internacional cada vez mais conflituoso, a neutralidade excessiva tornou-se sinônimo de irrelevância. O maior país da América Latina permanece “juvenil” no tabuleiro global, frequentemente usado por potências externas na extração de matérias-primas e na expansão de interesses econômicos. 

​Essa fragilidade brasileira também contribui para o enfraquecimento da ONU. Desde a fundação, Brasil e Estados Unidos foram pilares importantes da organização. À medida que ambos enfrentaram crises internas e externas, abriu-se espaço para a dominação por ideologias que comprometeram ainda mais a credibilidade da instituição.


Conclusão: O início da queda dos dominós

​O tabuleiro internacional equilibra-se novamente em torno de estruturas de poder hegemônico. Ainda não está claro se os Estados Unidos recuperarão sua posição dominante ou se outra potência assumirá o posto. O que é certo é que as mudanças tecnológicas, culturais e políticas estão moldando as próximas décadas. 

​A fortificação de posições conservadoras intensifica o confronto contra o progressismo, especialmente na Europa — seu berço — e na América Latina. As próximas décadas testemunharão a queda gradual das instituições supranacionais. A ONU representa apenas o início da queda dos dominós. 

​O multilateralismo ideologizado e persecutório está sendo enterrado. O mundo retorna à lógica clássica do poder: interesses nacionais claros, diplomacia direta e correlação de forças. As grandes mesas estão vazias. O futuro será escrito nas relações bilaterais, nas alianças flexíveis e na dura realidade da política internacional.


Referências bibliográficas:

  • DUROSELLE, Jean-Baptiste. Todo império perecerá: teoria das relações internacionais. Tradução de: Ane Lize Spaltemberg de Sequeira Magalhães. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2000. 
  • KANT, Immanuel. À paz perpétua: um projeto filosófico. Porto Alegre: L&PM, 1989. (Obra original publicada em 1795). 
  • ONU. Organização das Nações Unidas. Carta das Nações Unidas. São Francisco, 26 jun. 1945. Disponível em: . Acesso em: 10 de maio, 2026. 
  • WATSON, Adam. Hegemony & history. London, 2007. 
  • WATSON, Adam. The evolution of international society, 1992.

Brasil Grande - Artigo - Das grandes mesas ao túmulo o fim do multilateralismo antes do centenário.pdf


Liniky Pereira Freitas Pires 11 de maio de 2026
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